O dilema do lojista (Parte 1): como empreender do zero
Este não é um mero texto de blog com a finalidade de conquistar seguidores; está mais para um desabafo ou o relato de um casal de lojistas, aos quais vou dar o nome de Diego e Cecília, que já há alguns anos vêm passando pelo dilema de administrar lojas de moda.
No centro do furacão está um casal de empreendedores que se conheceu na faculdade e, após o casamento, teve a ideia de criar uma loja para vender roupas fitness.
Em 2014, Diego havia tentado empreender no mundo digital e criou a sua primeira loja virtual para vender acessórios de pesca, mas durante dois anos o negócio não prosperou. Foi quando, em conjunto com Cecília, tiveram a ideia de mudar de ramo para comercializar moda fitness, uma área mais interessante para Cecília que era praticante assídua de musculação.
No começo, por volta de 2016, as coisas não iam bem dentro de casa. Cecília trabalhava em uma grande empresa enquanto Diego estava desempregado. Diego era um homem inquieto, autodidata, que não se conformava com a situação atual. Ele vinha de uma família pobre, com pouca estrutura, e resolveu tentar a vida na cidade grande, mudando-se para a capital. Já Cecília, que também não era de uma família privilegiada, tinha nascido na capital e levava uma vida normal. Órfã de pai, ela aprendeu a trabalhar cedo e conseguia se manter com seu trabalho, como sempre fez depois que se tornou adulta.
Os dois primeiros anos no ramo de moda também não foram fáceis. Praticamente Cecília sustentava a casa, enquanto Diego focava em e-commerce. Mas, seguindo o exemplo do negócio anterior, o comércio de moda também não prosperava; as vendas eram tímidas e mal cobriam as despesas. Mesmo assim, eles não paravam de investir tempo e o pouco de dinheiro que economizavam após pagar as despesas de casa.
As compras de produtos eram feitas parceladas e Cecília ia pagando com o salário que recebia. Quando terminávam de pagar uma compra, fazíam outra, e com o passar dos meses os fardos iam se acumulando no quarto.
Após quase um ano e meio e muita dedicação para cadastrar produtos e fazer melhorias na loja virtual, um fato começou a chamar a atenção: várias clientes começaram a entrar em contato por telefone e pedir o endereço da loja para conhecer e provar os produtos. O casal não tinha uma loja física, mas a exposição online estava gerando uma demanda reprimida entre as moradoras da capital. Elas queriam conhecer os produtos e prová-los pessoalmente.
Sendo assim, tiveram a ideia de criar a primeira loja física. Antes disso, tentaram criar um showroom em casa, mas, além do local ser precário, não passava muita confiança. Sem contar que atraía muita gente desconhecida, o que causava uma sensação de insegurança.
Não demorou muito e abortaram a ideia do showroom; acharam melhor focar em uma loja física mesmo, um local mais seguro e profissional. E assim, em 2018, abriram sua primeira loja física em um espaço pequeno, numa galeria no centro da cidade. Não tinham nenhuma experiência com lojas físicas, mas precisavam dar o primeiro pontapé. E foi em um local pequeno, frio e com pouca visibilidade que começaram sua jornada.
A montagem da loja, como a marcenaria e decoração, era simples; contrataram uma empresa para desenvolver o projeto, o qual parcelaram em várias vezes no cartão de crédito. Já o estoque, que é a parte mais cara, estava em casa esperando para mudar de local. E como capital de giro contavam com o que sobrava do salário de Cecília.
Já no primeiro mês o negócio se mostrou rentável e, após alguns meses sentiram a necessidade de se mudar para uma loja maior e assim fizeram, mudaram-se para uma galeria próxima e com maior prestígio. E já no ano seguinte, veio o grande desafio: receberam o convite para abrir uma loja em um shopping.
A negociação no shopping foi regada por insegurança e entusiasmo, mas, no final, eles aceitaram o desafio e em 2019 abriram sua segunda loja. O local era outro nível: centenas de lojas espalhadas nos corredores, cinema, praça de alimentação, estacionamento gigante, muito movimento e "muitas despesas". Mas a motivação era grande e o casal não se abateu.
Para quem começa do zero, qualquer nível que você alcança é prazeroso e isso te vicia em querer sempre mais e quando acontece o oposto, isso te frustra. Foi exatamente o que aconteceu no shopping, o trabalho era árduo, as despesas e os custos eram altíssimos, a carga horária para manter a loja aberta era descomunal, forçando-os a trabalhar 7 dias por semana, por mais de 10 horas por dia, sem contar com o faturamento que despencou desproporcionalmente.
Nestas horas, bate o arrependimento, a insegurança e a desmotivação. E, ao mesmo tempo, você precisa arranjar forças para não sucumbir, precisa achar um sentido nas coisas, erguer a cabeça e se desafiar. No shopping, existia um contrato que obrigava o lojista a permanecer e a multa rescisória era muito alta, o que forçava o casal a pensar muito antes de desistir. E assim o ano de 2019 passou, arrastado, com faturamento baixo nas duas lojas e pouco lucro. Em 2020, as coisas prosperaram a passos lentos. E em 2021, veio a grande pandemia, o colapso total do sistema, a bomba que pegou todo mundo desprevenido.
Pessoas entraram em desespero, as mídias proclamavam o fim do mundo, os corruptos se aproveitavam das brechas da lei e os inseguros ficavam em casa torcendo para chegar o próximo dia. Lockdown, o mais injusto possível. Os lojistas em geral não podiam trabalhar porque poderiam "dissipar a doença", enquanto os supermercados, postos de combustível, farmácias e padarias podiam atender ao público com restrição de proximidade, como se isso fosse uma medida segura para todos.
Mas o fato é que este foi mais um desafio na vida dos empreendedores. Sem poder faturar com o lockdown e sem muitas reservas para pagar as contas, eles só podiam contar com o dinheiro do último mês de faturamento e uma reserva que tinham na poupança, fruto do acerto demissional do último trabalho registrado de Cecília, quando foi demitida em 2018.
O capital guardado não era suficiente para pagar os boletos que venceriam no mês seguinte. E todo dia a saga de ir ao banco pagar contas aterrorizava o casal, que não tinha perspectivas de abrir a loja e nem de quando o lockdown acabaria. Sendo assim, a cada dia, o dinheiro ia evaporando. E as primeiras ajudas financeiras do governo se esgotavam em minutos, logo que eram liberadas. O casal já havia percorrido os bancos para conseguir um empréstimo, mas isso estava longe de dar certo.
Numa sexta-feira, final de mês, quando as reservas do casal estavam praticamente esgotadas, eles receberam uma mensagem da gerente do banco onde tinham conta pessoa jurídica. Na mensagem, ela informava que na próxima segunda-feira, exatamente às 4h da manhã, ia ser liberado mais uma verba do governo para ajudar o comércio. Entretanto, ela avisou que tinham que ficar atentos, pois assim que liberasse o dinheiro haveria uma enxurrada de pessoas tentando acessar o aplicativo do banco para conseguir o benefício. Então, na segunda-feira, já muito ansioso, Diego havia colocado o relógio para despertar às 3:30 da manhã, mas é bem provável que nessa noite ele nem tenha dormido direito. A sua vida dependia daquela oportunidade, ele não poderia perder.
A partir das 3:58 daquela segunda-feira começou o stress. Diego atualizava o aplicativo do banco a cada 30 segundos e tinha momentos em que o sistema travava, mas ele não desistia: entrava e saía, atualizava, clicava nos links e nada. Até que, às 4:05, viu surgir na tela o link mais esperado da sua vida, o link do Pronampe. Bingo! Conseguiu acessar e, em poucos segundos, inseriu todas as informações solicitadas e clicou no botão "Enviar". Alívio, sua transação foi aprovada. E como num passe de mágica o dinheiro caiu na conta. Foi o fôlego que precisavam para manter as contas em dia por mais um mês.
Depois disso, ele pôde descansar e no dia seguinte conseguiu seguir em frente com mais tranquilidade. Nas semanas seguintes, o casal teve tempo suficiente para se recuperar financeiramente e continuar sua trajetória rumo ao sucesso.
Nos anos seguintes, aconteceu uma verdadeira montanha-russa: o mundo mudou, as culturas foram abaladas, as pessoas tiveram que se adaptar a um mundo diferente. Quem trabalhava há anos registrado poderia se ver agora desempregado. E as empresas que sobreviveram, as mesmas que tiveram que fazer demissão em massa, agora estavam desesperadas para contratar. Novos modelos de trabalho surgiram, como o home office. Cargas de trabalho menores e muita gente empreendendo ou trabalhando como autônomos. A internet se transformou em um mundo paralelo, onde muita gente ficou rica, e tudo isso mexeu muito com a cultura do país.
O que podemos concluir é que, nos últimos anos, o modo como se fazia gestão não funciona mais. Os novos empregados não dão mais prioridade para salários, benefícios tradicionais e um local para "trabalhar". Agora, eles podem escolher à vontade e não se importam em passar um único dia no trabalho e depois se demitirem. "Esquentar carteira" não existe no vocabulário deste novo perfil. Agora a onda é ter status, liberdade e ganhar bem. E quando a pessoa começa a estudar ou se profissionalizar, logo percebe que pode ganhar mais trabalhando por conta própria.
As leis do país estão defasadas, não se adaptaram à nova realidade, e isso impede que o empresário possa se adaptar às novas mudanças. Por exemplo, em alguns segmentos ainda é proibido contratar freelancers ou empregados temporários diretamente. No entanto, muitos lojistas não sabem ou optam por correr o risco e contratar temporários sem carteira assinada. O número de processos trabalhistas cresceu; as pessoas não se importam mais com o futuro, o que importa é o agora, é colocar dinheiro no bolso rápido.
A vida de Diego e Cecília segue em frente administrando duas lojas, não mais em shopping, não mais em galeria, e sim na rua. Saíram dos shoppings, um sistema que tem regras próprias onde o lojista é subordinado e pode pagar multas e sofrer sanções se descumprir as regras do contrato. Agora eles estão por conta própria; o fluxo de clientes não é mais automático, a segurança e a comodidade não são tão marcantes, mas eles têm a liberdade de criar as próprias regras.
